Domingo, 08 Janeiro 2012 19:46

Odiando Pessoas

Chego na megalópole São Paulo. Nessas viagens tenho aprendido a dormir de forma minimamente confortável em cadeiras confrontáveis e cada vez mais adquiro um certo ódio pelos seres humanos que observo dentro da ignorância e do egoísmo.


No avião por exemplo, quando o pássaro de ferro pousa, dali a 5 minutos que está taxiando, as pessoas já começam a tirar cintos e ligar celulares. Duas coisas perigosas e proibidas. Em seguida o avião para, porém ainda não é hora de levantar, ainda não deram o sinal, as turbinas não pararam, as portas não estão no manual, mas adianta avisar? Não! Porque aparentemente 90% das pessoas estão realmente atrasados para um compromisso, com o presidente da Itália ou a bunda delas tem alergia a cadeiras de avião. Todo mundo simplesmente levanta apressado, sai pegando as malas e... E??? EEE?
Nada! Todos os idiotas ficam parados no corredor do avião esperando a porta abrir.
Ficam ali espremidos, pelo menos uns 4 a 5 minutos, parados. Como perfeitos idiotas se espremendo.

Eu fico puto. Uma vez estava sentado no corredor e o sujeito que estava ao meu lado na cadeira da janela, mesmo sem eu levantar, se levantou, esperando que eu fizesse o mesmo. E eu não fiz, não mesmo. Até porque, do meu lado direito já tinha uma bunda marrom ocupando o corredor. Não tinha pra onde aquele homem ir. “Você quer passar?” “Quero.” “Pra onde? Não cabe ninguém”. E fiquei sem mover um centímetro e o sujeito também, ele se recusou a sentar novamente e esperar o corredor começar a andar.  Ele ficou esmagado com o pescoço torcido e a orelha encostando no teto do avião, apoiando os cotovelos na cadeira da frente. Que ódio.

Além dessa pressa sem sentido. E digo sem sentido mesmo, por que todos saem correndo  e acabam nas esteiras esperando as bagagens chegarem. E elas sempre demoram à chegar. Ou seja, adianta?
Enfim, além disso, as pessoas não percebem que existe um sentido de bom senso na ordem da saída do avião. É óbvio que, se a porta da frente abre, sai a primeira fileira, depois a segunda, em seguida a terceira, a quarta e etc. Mas não, o povo ta pouco se fudendo, eles vão passando a frente. E se você por exemplo, está na fileira 11 e não acompanhou o bando de ignorantes na hora de levantar e ficar 5 minutos de pé espremido, você simplesmente perdeu a vez. Por que dificilmente alguém vai ter o mínimo de educação pra te dar a vez. O pessoal que vem do fundo segue pelo corredor como se estivesse fugindo da AIDS em pessoa. Ninguém tem coragem de parar, ser educado e fazer a gentileza de esperar você levantar, pegar sua mala no armarinho em cima das poltronas e se tornar o novo líder de fila. É irritante.

Tão irritante quanto os carros que não param na faixa mesmo com o pedestre dando sinal de travessia. Como isso me irrita, eu tenho vontade de apedrejar o carro.

E  pior, do aeroporto, eu pego um ônibus que me leva até o terminal onde eu pego um metrô, e do metrô vou a pé pra casa. A ignorância de um metrô cheio de pobre é a mesma de um avião cheio de rico. Cada um só pensa no seu umbigo. Ali o bom senso morre, assassinado.

 Sempre que pego metrô às 18 horas é a mesma história. O povo que quer entrar no vagão simplesmente não espera quem precisa sair e vai empurrando e pronto. As pessoas não sabem falar “com licença”. E não é que não aprenderam, elas realmente não sabem falar. De usarem tão pouco, esqueceram como fala. O “Com licença” virou “cenç...” Ela fala “cenç” e engata a primeira marcha. É foda. No metrô das 18 já vi várias vezes as pessoas se empurrando de verdade, espremendo umas as outras, acotovelando e etc. E ninguém faz nada. Não sabem pedir licença, nem desculpa e nem reclamar ou exigir o mínimo de bom senso.

Em uma dessas vezes, eu estava sendo esmagado junto com mais sei lá quantas pessoas por dois ou 3 homens que empurravam a todos para conseguir entrar no metrô onde não cabia mais ninguém, eles realmente se apertavam para a porta do vagão fechar sem prender alguma parte dos seus corpos.  Nesse empurra empurra eu grito “Ei! Não cabe mais niguém! Parem parem! Não cabe mais!” Gritei o que era óbvio, e ninguém, repito, niguém disse um “piu”. Inclusive recebi alguns olhares de desaprovação. Os 3 homens continuaram a empurrar ignorando meu aviso. Fiquei com raiva e quis falar “Vocês estão pouco se fudendo, é isso? Não escutaram não?!” Mas não sei por que falei “Ah! Vocês estão se fudendo, é isso?” E parei por aí... Me sentindo estranho, acho que estava tão aperta que espremi meus pensamentos.

Em outra ocasião, estava com minha mulher no metrô,  ela não morava em São Paulo. Ela recebeu umas 3 “ombradas” andando pelo corredor meio cheio do metrô. “Oh, as pessoas não desviam não, que absurdo”  aí respondi “ué, os dois tem que desviar um pouquinho cada, né?” “Pois é, mas as pessoas simplesmente não desviam nada, elas acham que apenas os outros tem que sair da frente do caminho delas”. Eu fiquei na dúvida se aquilo realmente acontecia, comigo naquele momento não estava rolando, eu desviei de todos. Ela disse “Quer ver?”. E imediatamente se pôs a andar como todos, seguindo reto sem desviar sua rota ou esquivar ombro e tronco com medo de esbarrar em alguém, ela simplesmente seguiu.  Eu fiquei assistindo, e vocês não acreditam. Ninguém, mas ninguém desviou!  Ela deu umas 5 “ombradas” em pessoas diferentes, ela firmou o ombro e foi; homens de terno, estudante, uma senhora e uma mulher jovem. Nenhum deles desviou nem um milímetro o ombro. Dos 5 uns 3 olharam pra trás com cara de “Que absurdo essa louca!” e seguiram reto.  Cegos, cegos, cegos. Que raiva!

Nesse dia da história anterior, quando fui esmagado, ao sair do metrô vi um mar de cabeças. Nunca tinha visto tanta gente em uma estação. Todos, apertados, andando devagar, pelas escadas e escadas rolantes, saindo e entrando, gente de todos os lados e espaços possíveis. Erámos verdadeiros gados, gados nos pastos metálicos das minhocas de metal dos mais afortunados que seguiam de helicópteros acima de nós. Diante daquela constatação, fiz o que meu instinto de ator improvisador me pedia à fazer, me expressar! Expressar  o que meu organismo e alma sentiam naquele momento, expressar o que eu era ali, naquela contexto. E respondendo a este chamado, sem titubiar, me pus a mugir! Mugir como uma vaca que segue  no rebanho.
“Muuuu, Muuu”.
No terceiro mugido, umas 3 pessoas das 300 em minha volta perceberam o que eu tentava comunicar e começaram a rir da própria e triste realidade.
Nesse momento vi a comédia tendo uma função social. E isso me fez suportar mais um pouco aquela realidade.


FIM

Lembrete: se o governo quer melhorar a qualidade de vida, poderia começar a abaixar o preço de perfumes e desodorantes! #reflexoesnometrô

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